quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Joana leu: A segunda vez que te conheci, de Marcelo Rubens Paiva

"A segunda vez que te conheci"
Marcelo Rubens Paiva
Editora Objetiva
192 páginas
"Depois de ver seu segundo casamento ruir e perder o emprego, Raul vai morar num flat, e no prédio conhece uma prostituta. Quando percebe, está gerenciando uma dezena de garotas de programa. Esse novo homem, porém, é colocado em xeque com o reaparecimento da sua primeira mulher."

A estória começa quando Ariela comunica a Raul que está saindo de casa e terminando o casamento. Sem maiores explicações, ela simplesmente diz que a relação não está mais funcionando, e deixa Raul perturbado, ora pensando que sua dedicação ao trabalho de jornalista foi o que acabou com o casamento, ora imaginando que sua esposa está se envolvendo com outro homem. A verdade é que Ariela saiu do apartamento, deixando para trás apenas alguns de seus livros de filosofia.

Em meio ao desespero pelo fim do casamento, Raul passa a conversar bastante com uma amiga de sua ex-esposa, Fabi, que parece compreendê-lo perfeitamente e sempre tem tempo para ouvir suas lamentações. Dessa convivência surge um forte desejo, de ambas as partes, e eles acabam ficando juntos. A ligação se fortalece tanto que Fabi se muda para o apartamento de Raul e eles passam a viver como um casal.

No fundo Raul nunca esqueceu Ariela, apesar de gostar muito de Fabi. Quando ela disse que queria terminar a relação, assim como fez sua primeira esposa, foi Raul quem saiu do apartamento, deixando toda uma vida para trás, e foi morar num flat emprestado por um amigo.

É a partir desse momento que sua vida começa a mudar radicalmente: com dois casamentos falidos e morando sozinho, Raul ainda é demitido da revista em que trabalhava há anos, ficando meio sem rumo. Então, em seus dias de ócio, a única coisa que ele encontrou para fazer foi ficar à beira da piscina do flat, aproveitando o sol. 

Desde a primeira vez em que esteve na piscina Raul percebeu a presença de várias meninas lindas, que, aos poucos, ele foi descobrindo serem garotas de programa. Inesperadamente, ele faz amizade com uma delas e começa a ser seu motorista, levando-a de um programa para outro e recebendo parte de seu pagamento por isso. A notícia se espalha e outras garotas pedem que ele faça o mesmo com elas.

Raul acaba gostando desse novo ofício, e começa a ganhar uma boa grana também, mas isso não lhe traz felicidade e ele continua sempre pensando em Ariela, desejando que ela volte e eles reatem o casamento.

Entre uma corrida e outra, o personagem Raul vai se aprofundando em filosofia, fazendo algumas reflexões interessantes sobre o ser ou não ser, sobre o agora e o ontem e sobre sua própria existência. De tanto pensar sobre o fim de seus casamentos, ele tenta criar poemas que expressem seus sentimentos, e esses são os momentos mais legais do livro. As frases do personagem são profundas, e ao mesmo tempo hilárias, mostrando toda a versatilidade do autor. 

O estilo de narrativa de Marcelo Rubens Paiva é muito peculiar, dando uma velocidade boa à leitura e envolvendo o leitor com seu ritmo crescente. Os parágrafos são curtos e sem rodeios; mesmo nos momentos em que ele fala sobre filosofia, que é um assunto mais complexo, o ritmo da leitura é mantido e não diminui o interesse do leitor.

Apesar de envolver o dia a dia de garotas de programa, descrevendo minuciosamente algumas situações vividas por elas, o livro não foca apenas nesse assunto, e não é em nenhum momento vulgar ou apelativo. A narrativa nada mais é que um retrato da vida das profissionais do sexo, em paralelo aos dilemas de Raul, que começa como um homem comum, que trabalha e mantém em casamento feliz, mas que descobre que é possível ganhar dinheiro fácil explorando a satisfação alheia.

O final do livro é muito inteligente, misturando um momento trágico com uma solução feliz para o impasse sentimental de Raul, e confesso que fiquei satisfeita com o desfecho que o autor preparou para ele, principalmente com a maneira que Marcelo encontrou para revelar o final. Os últimos momentos da narrativa podem surpreender o leitor e ao mesmo tempo fazê-lo pensar que, na segunda vez, nada poderia ter sido diferente da primeira.

Joana Masen
@joana_masen

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